15/06/12

ESPECIAL
Bolha no Cerrado e na Savana?
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“Muitos fazendeiros do Mato Grosso estão plantando soja e cana-de-açúcar na savana africana” 

O filósofo e escritor belga Luc Vankrunkelsven de Wervel (Grupo de trabalho para uma agricultura justa e mais responsável) se considera um instrumento para o debate sobre o cerrado no Brasil e na Europa. Em visita a Goiânia para divulgar seu novo livro Legal! Otimismo - Realidade – Esperança ele concedeu entrevista a Educação Ambiental em Goiás. Luc Vankrunkelsven esteve em vários Estados brasileiros incluindo Rondônia e a partir de 2013 pretende ampliar seu trabalho para Tocantins, Bahia e quer voltar ao Acre. Novamente realizando palestras para auditórios lotados na Universidade Federal de Goiás, PUC-Goiás e Agência Municipal de Meio Ambiente ele recorda que não foi sempre assim. Há cinco anos fez palestras em Goiás para “grupos de dez ou quinze pessoas”. Nos últimos dois anos o número de interessados pelo tema Cerrado aumentou. Luc Vankrunkelsven percorreu cidades brasileiras para lançar seu 11º livro, quarto traduzido para o português. “O livro Legal! Otimismo – Realidade - Esperança traz muitos exemplos do abuso do uso da palavra sustentável, o greenwashing ou capitalismo verde. São textos críticos sobre capitalismo verde. Por exemplo, sobre substituição de petróleo por etanol e outros produtos de cana-de-açúcar, biodiesel da soja, até eucalipto transgênico para substituir etanol de cana-de-açúcar”. Em sua palestra em Goiânia Luc Vankrunkelsven apresentou rótulos de picolés de gabiroba, jatobá, cagaita, murici, brejaúba, buriti, umbu, taperebá, pequi e outros perguntando aos goianos se conheciam esses frutos do cerrado e sabiam da importância da preservação do cerrado para exploração econômica sustentável da região. Mas em seu livro ele frisa também que o agronegócio pode ser uma bolha financeira prestes a explodir considerando por exemplo dívidas de fazendeiros do Mato Grosso. E um detalhe interessante é que recente produção de soja na savana africana vai resultar em maiores impactos ambientais no mundo. Leia entrevista exclusiva a Educação Ambiental em Goiás.

“Dez países e também os indianos e chineses estão comprando muita terra na Etiópia e em dez outros países africanos e criando problema lá também”

 

Ilustração mostra o avanço da soja na África motivado pelos atrativos mas também encontrando dificuldades e não alertando para os inescapáveis  impactos ambientais sem a realização de maiores pesquisas na savana

“O cerrado é uma das mais ricas savanas do mundo, mas não há muitos estudos sobre as savanas da África”


Livro Legal! Otimismo - Realidade - Esperança lançado por Luc Vankrunkelsven em Goiânia e várias outras cidades no Brasil

Wagner Oliveira – A Europa compra muita soja do Brasil. China compra e vai comprar muito mais. Mas Europa e China conhecem a importância e o potencial do nosso cerrado nativo?
Luc Vankrunkelsven - É uma dinâmica histórica que não podemos parar. Se um povo tem mais poder econômico vai comer mais carne. A Europa importa 39 milhões de toneladas de soja sendo 20 milhões de toneladas só do Brasil. Há 20 anos a maior parte da soja era importada dos Estados Unidos. A China ficou membro da OMC em 1999 e, em 2000, começou a importação da soja que no ano 2010 chegou a 50 milhões de toneladas (previsão para 2012: 57 milhões de toneladas), que já é muito mais do que os europeus importam. Até indianos entram agora no paraíso do McDonald’s. Então eles conhecem o cerrado? Não! Eles não conhecem o cerrado! Os chineses não conhecem o Brasil! Há muitos agricultores na Bélgica que não sabem que a ração animal tem soja do Brasil. Quando falo com brasileiros eles não sabem que a soja daqui vai para alimentar frangos e suínos na Europa, o salmão da Norwegia que é muito barato porque come soja do Brasil e farelo de peixe do Peru. O consumidor não sabe. Temos de conscientizar o consumidor no Brasil e na Europa. Há um livrinho com nossa campanha: Pensar globalmente, alimentar-se localmente. Não sou fundamentalista, pode se exportar, é bom haver comércio mas as toneladas de soja e a dependência incrível da Europa de proteínas além-mar nunca poderá ser sustentável.

Documentário exibido por Luc Vankrunkelsven mostra impactos nas comunidades de grandes plantações de eucaliptos no Brasil

Wagner Oliveira - Se não conhecem o cerrado não conhecem os problemas ambientais brasileiros também causados muitas vezes pela monocultura de exportação.
Luc Vankrunkelsven - Não comprenhendo bem.... O Brasil não é o centro do mundo. É um país surgindo mas na imprensa internacional é mais carnaval e futebol. E em terceiro lugar é Amazônia graças a ações do Greenpeace e outras ONGS que falam só do desmatamento e do impacto mundial. Sobre o Cerrado estão só começando a falar, poderia dizer graças ao trabalho e aos livros de Wervel. Eu fundei há 22 anos Wervel justamente para tentar explicar nossa responsabilidade, nosso consumo na Europa de frangos e suínos que tem impacto até aqui. Eu escrevo e falo há 22 anos sobre este assunto. Mas só nos últimos anos é que os Europeus estão compreendendo um pouco. Aqui muitos de vocês agricultores não sabem que a soja é exportada para a Europa para ração animal, não sabem que é para o biodiesel.

Documentário exibido por Luc Vankrunkelsven em sua palestra mostra a realidade de índios na Bahia cercados por plantações de eucalipto e suas consequências sócio-ambientais

Wagner Oliveira – O Senhor comenta em um capítulo do seu livro Legal! Otimismo - Realidade – Esperança que o Brasil está de joelhos para a China. E a expansão da soja atualmente será no norte e nordeste do Estado, regiões mais preservadas do cerrado em Goiás. Como o senhor vê preservação ambiental e necessidade econômicas do país?
Luc Vankrunkelsven - Mas eu tenho perguntas como sobre as divisas. A sociedade do Brasil perde muito porque tem a Lei Kandir de 1996, o agronegócio não tem de pagar alfândega nos portos. Quem ganha com este comércio é Cargill, Bunge, Dreyfus, ADM, e agora os chineses vão pegar essa parcela do norte de Goiás porque esses quatro grandes não estão lá e eles querem evitar o poder econômico e monopólio desses quatros. Os chineses vão fazer logística eles mesmos. Mas se o norte do Estado de Goiás é uma região até agora bem conservada podendo ter até 70% de preservação, com os chineses os índices vão diminuir.

Florestas plantadas = vegetação nativa?

“Os brasileiros têm muita terra, muita água. A política acha que têm a 'vocação para alimentar o mundo'. Não só o estômago das pessoas, mas também o ‘estômago’ dos carros: biodiesel da soja, etanol da cana-de-açúcar. E vocês sabem quem vai ganhar – o ‘estômago’ do carro porque tem mais poder”


Wagner Oliveira – No ano passado o senhor já observava que artigos sobre o Cerrado estavam surgindo na Europa e outros continentes. Assim a discussão ficou internacional. O que avançou do ano passado para este ano?
Luc Vankrunkelsven - É lentamente. É novo. Graças a ações do Greempeace e outras organizações a Amazônia é bem conhecida e as pessoas não gostam de desmatamento. Mas ninguém conhecia o cerrado. Agora está começando. Há organizações como Friends of the Earth Europe - Amigos da Terra (www.foe.co.uk/) - que incorporaram a importância do Cerrado. É um emblema de muitos organizações de meio ambiente para a Europa inteira. Em análises e textos para a imprensa eles falam sobre a soja e o problema da Amazônia e o Cerrado. Não só a Amazônia. Essa é a mudança do último ano. Acho que é resultado de um sinergia. Wervel e Friend of the Earth Europe têm escritório no conjunto de Mundo B (www.mundo-b.org; 40 organizações com 400 operários da Europa inteira, perto do Parlamento Européio em Bruxelas). Tentamos também trabalhar junto com o Parlamento Europeu sobre o Código Florestal fazendo um alerta, como uma voz de Bruxelas para o Brasil sobre o perigo do novo Código Florestal Brasileiro. Mas não foi possível, mesmo com muito trabalho.

Documentários exibidos por Luc Vankrunkelsven em suas palestras em Goiânia
“Em Israel guerra entre palestinos e israelenses é sobre fontes de água também”

Wagner Oliveira – Há quem diz que a soja vai continuar sendo a locomotiva do agronegócio em 2013. O Mato Grosso tem este ano a produção record de soja e pode chegar a 24 milhões de toneladas em 2013. Como o senhor vê esses números?
Luc Vankrunkelsven - Vai também aumentar em Rondônia, em Goiás com os chineses e outros. Um dos elementos do meu pessimismo é que não posso mudar e você também não pode quando um povo tem mais poder econômico. Agora os asiáticos, primeiramente os chineses e até os indianos vão comer mais carne. E quando um povo tem 1% a mais de poder econômico normalmente vai comer 0,5% a mais de carne e para isso precisa de muita terra e muita água daqui (Brasil). China tem 20 % da população do mundo, mas só tem 6% da terra arável do mundo e 6% da água doce do mundo. Eles buscam e ocupam terra no Brasil, na África... Em 15 anos há mais indianos que chineses... Eles vão buscar também: terra e água. As tendências mundiais são que o consumo de boi vai diminuir um pouco. Mas o consumo de frango e suíno, sobretudo de frango, vai subir muito e eles comem soja e milho. Então não vamos parar.
Colheita de grãos na África começa sem antes o desenvolvimento de pesquisas sobre o potencial da savana africana como ocorreu com o cerrado brasileiro há pouco mais de três décadas


Wagner Oliveira – Nova soja transgênica da Monsanto chamada BTRR2 deve chegar primeiro ao Brasil em 2013. O total de transgênicos deve subir para ¾ da soja plantada na safra de 2010/2011. Como o senhor vê a expansão da soja transgênica no Brasil?
Luc Vankrunkelsven - A Monsanto joga bem o jogo. Eles usaram os agricultores. Primeiro trouxeram a soja transgênica nos anos 90 da Argentina e cultivaram ilegalmente no Rio Grande do Sul e o presidente Lula fez a legalização em 2004. Agora é preciso pagar royalties e vai se espalhar mais ainda. Em Rondônia só 5% da soja é transgênica. No Mato Grosso também não é muito, em outros Estados pode ser mais. Por exemplo no Rio Grande do Sul é 95%. Vai crescer no mundo e também no Brasil. O milho transgênico também está sendo utilizado em experiências na Bélgica. É novo para nós, não para cultivo mas para experiências. Tem também uma grande discussão na Bélgica, na Europa porque 80% dos europeus não gostam também dos transgênicos. É uma discussão não só daqui do Brasil mas de lá também.

“Não sou contra o comércio, não sou contra a economia. Não precisamos ser pobres. Mas podemos gerar mais riquezas por exemplo com agrofloresta que com monocultura da soja”

Wagner Oliveira – Muitos países da Europa estão passando por crises, com dívidas. A Europa hoje pode pensar em auto-suficiência em relação a produção de alimentos?
Luc Vankrunkelsven - É um dos meus temas. Neste ano faz 50 anos que começou em 1962 a política comum de agricultura da Europa. Naquele ano começou o fluxo de proteínas de soja dos Estados Unidos. Dos anos 1970 a 1980, sobretudo de 1990 a 2000, e até agora do Brasil. É possível se pararmos, se diminuirmos esse fluxo de proteínas, se pararmos de exportar o trigo (30 milhões de toneladas por ano) temos de ser autônomos na nossa produção. Mas a Europa pensa que tem 'vocação para exportar'. Devemos parar com essas exportações. O Brasil também tem a visão de que tem de alimentar o mundo. Mas isso é muito difícil, só possível com muita energia, muita proteína de fora. É o oposto da ideia de 'soberania alimentar'
Luc na TBC em Goiânia em programa de entrevistas

“A Bélgica é muito pequena, mas é o sexto país exportador de produtos alimentícios. A exportação de frangos e suínos só é possível com a importação de soja do Brasil, Argentina e de outros países”


Wagner Oliveira – Alternativas como a substituição da soja por tremoço, colza, gramíneas-trevo, cânhamo na Europa estão dando certo?
Luc Vankrunkelsven - Sim, está crescendo. Até a França também começou a plantar soja novamente desde 2010. Só é possível quando o governo dá um pouco de subsídio porque a soja chega muito barata do Brasil porque não paga nada de alfândega com a Lei Kandir e nada na entrada dos portos na Europa. Soja do Brasil é mais barata por exemplo em relação a soja da Argentina que quando sai do porto tem de pagar alfândega. Então é impossível plantar nossas proteínas na Europa porque é sempre mais caro. Os governos têm de ajudar os agricultores. Outro exemplo. O governo da Flandres, região norte da Bélgica, implementou em 2011  uma proposta da Comissão Europeia, a Agrofloresta. Quando um agricultor vai plantar árvores no sistema agrofloresta ganha 70% do custo do plantio. Tremoço é mais no sul da Europa mas está começando também em outras regiões. É possível plantar até Hamburgo.

“Há cinco anos fiz palestras para grupos de dez, quinze pessoas nas universidades de Goiânia; agora 200 pessoas”

Wagner Oliveira – No Capítulo 29 o senhor aborda Brasil grande exportador de água. Um contraste já que a água é cada vez mais um líquido precioso. Em Goiás já temos conflitos pela água no município de Cristalina onde há o maior número de pivôs no Estado. Como o senhor vê o Brasil como grande exportador de água?
Luc Vankrunkelsven - O Brasil tem tudo: terra, minerais, água. E água é muito importante no mundo. Poderia dizer que o Brasil exporta muito barata sua água para Europa, China e Japão em forma de soja, etanol, carne, etc. Há quem diz que guerras do século XXI serão por água. Em Israel guerra entre palestinos e israelenses é sobre fontes de água também. Mas também no Brasil a desertificação está avançando.

“Como vocês têm aqui agricultores sem-terra, nós temos muitos frangos e suínos sem-terra. A terra e a água estão aqui. Tudo é importado. Esse sistema internacional precisa de muita energia e não tem futuro”


Wagner Oliveira – No capítulo 35 o senhor aborda a história da soja, a história de sucesso fazendo uma interrogação: “Oficialmente o agronegócio é uma história de sucesso, contudo apesar de toda a propaganda muitos fazendeiros do Mato Grosso incorrem em dívidas equivalentes entre três e dez vezes seus patrimônios. Ou seja, uma bolha financeira que pode explodir a qualquer momento”. Gostaria que o senhor comentasse sobre essa bolha financeira que pode explodir a qualquer momento.
Luc Vankrunkelsven - Não tenho mais dados. Esses dados são de um doutorado de uma pessoa do Rio Grande do Sul que mora no Mato Grosso. Ele conversou com fazendeiros individualmente e eles disseram mas nunca vão dizer publicamente. Esses fazendeiros têm problemas de dívidas como está escrito no meu livro.
Na Universidade Federal de Goiás logo após palestra
Luc Vankrunkelsven recebido por Mizair Lemes (de cinza) na Agência Municipal de Meio Ambiente AMMA em Goiânia onde ele realizou palestra
Wagner Oliveira - A Monsanto espera lançar a primeira cana transgênica resistente a herbicidas e tolerante a insetos em 2020, portanto daqui a oito anos. Como o senhor vê a tecnologia dos transgênicos, depois da soja chegando a cana-de-açúcar, cana do etanol?
Luc Vankrunkelsven - Ciência transgênica é só um elemento do sistema não sustentável. Acho que o problema maior é a monocultura exportadora. Transgênico é um problema grave de concentração de poder. É um triângulo perverso, a indústria química comprou nos últimos 20 anos as sementes e comprou o know-how, como manipular essas sementes, por exemplo, a soja da Monsanto manipulada para a Roundup da mesma Monsanto. Esse triângulo de lucro sementes-chemeia-transgenia é perverso.
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Notícias na imprensa:

Países compram terra no exterior

África é a preferida e a motivação vem do aumento nos preços das commodities agrícolas e escassez de recursos naturais

China comprou mais de 5 milhões de hectares em outros países e principalmente na África Central e no sudeste asiático
O Estados Unidos comprou mais de 4 milhões de hectares no sudeste asiático, America Latina e principalmente na África.

Países mais procurados: Indonésia, Malásia, Filipinas , Etiópia, Congo , Sudão e o Brasil, que vendeu cerca de 4 milhões de hectares em pouco mais de 10 anos. (Com informações da revista Exame.com  de 15-05-2012)

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Brasileiros plantam soja e algodão na África

Brasileiros foram atraídos para a África pelo baixo custo de produção e menor distância com mercados da Europa, Ásia e Oriente Médio. 

Governos oferecem isenção tributária e boas condições de financiamento. “A savana africana é tida como "o novo cerrado" para a FAO (braço das Nações Unidas para a agricultura e a alimentação). 

Segundo a organização, a região pode se tornar um centro mundial de produção de grãos e alimentos, já que apenas 10% de sua área agricultável é utilizada.”  (Com informações da Folha de São Paulo 17-06-2010)

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Frete para a China ficará mais barato

Moçambique colocou à disposição do Brasil 6 milhões de hectares em quatro estados do norte do país, para explorá-las em regime de concessão por 50 anos pagando imposto de R$ 21 ao ano por hectare.

O governo exige apenas que pelo menos 90% da mão-de-obra seja local. O país africano também concede isenção de impostos para a importação de máquinas e equipamentos agrícolas.

Terras de Moçambique são semelhantes às do cerrado brasileiro, licenças ambientais são mais fáceis de serem obtidas e o custo do frete para a China ficará mais barato. (Com informações da Folha de São Paulo de 14-08-2011) 


Leia mais:
O Cerrado discutido internacionalmente

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